No dia seguinte, Clarissa me acordou aos pulos dizendo que tinha algo para me mostrar. Com os olhos cheios de sono e o cabelo completamente desgrenhado, levantei cansada e aos passos cambaleantes. Fui ver o que houve, confesso sem muita paciência nem ânimo. A semana toda foi estressante demais, e os problemas com o Pedro só aumentavam. Foi quando minha prima mostrou um lindo buquê de rosas brancas e vermelhas. Me apaixonei, claro.
Clarissa achou de primeira que fosse do Pedro, mas nem ele era capaz de tanto romance. Ainda mais depois do que aconteceu com a Bruna. Ele é do tipo que não se arrepende de nada e não pede perdão por nada nesse mundo. Ele não ia mandar o buquê de jeito nenhum.
Procuramos por um cartão que dissesse quem mandou, mas só achamos um bilhete que confundiu a gente ainda mais. Só vinha escrito: 1993. E só. Nós duas obviamente não entendemos nada, mas acabamos esquecendo a história toda e colocando as flores em um vaso lindo perto da varanda.
Assim o dia seguiu. Almoçamos e fomos, como de costume, para a casa do Lucas. O pessoal todo fez festa quando viram a Clarissa, se empolgaram tanto que até a Tia Julia foi fazer pipoca pra gente. O dia foi passando, fomos nos divertindo e acabamos dormindo lá, o que também não era novidade. Mas enquanto estavam todos já deitados, eu ainda não tinha conseguido fechar os olhos. Resolvi levantar, beber um copo de água ou sei lá, para ver se o sono vinha. Foi quando sem querer chutei a porta e acabei acordando o João. Apesar de ele insistir em dizer que não estava dormindo ainda, eu continuei a me desculpar. Por fim, decidimos ir para a sala e conversar um pouco já que não estávamos cansados o suficiente.
Mas então, ele falou que precisávamos conversar seriamente, e fiquei preocupada. Ele se sentou ao meu lado no sofá e explicou:
" Gabs, é o seguinte. Bom, não sei por onde começar, mas tem um tempo já que precisava te dizer isso. Desde que vc começou a namorar o Pedro, eu comecei a detestá-lo. Depois que vocês terminaram, isso piorou, mas eu achei que fosse só raiva por ele ter te magoado daquele jeito. Mas então vcs voltavam, e eu ficava com mais ódio ainda. E terminavam de novo, mas de uma maneira ou de outra, eu ficava mais aliviado quando vcs se separavam. Mas ultimamente eu tenho percebido que não é só isso. Eu me sinto mal quando vc e o Lucas se abraçam, se implicam, contam segredos e têm tanta cumplicidade. Senti um prazer enorme em pegar o Pedro pela gola naquele dia no cinema, mas também chateado por ter brigado contigo. Me sinto mal quando vc está longe, e com medo de estragar algo que eu nem sei o que é quando vc está por perto. E eu tenho pensado muito nessas coisas esses dias e foi só essa semana que caiu a ficha: Eu amo você. Eu tinha ciúmes do Pedro, tenho do Lucas e sinto um frio na barriga quando vc está perto." - Entrei em estado de choque. Acho que ele percebeu a minha expressão e continuou - " Sei que te peguei de surpresa Gabi, e acho que você nunca iria gostar de mim, e tento aceitar isso. Mas pensa bem no que eu te falei por que é pra valer." - Não conseguia responder nada. Então só falei:
-" João, você tem sido um dos meus melhores amigos desde que eu te conheci. Eu estaria perdida se não tivesse vc e o Lucas ao meu lado. Mas seria muito estranho se tivesse alguma coisa entre a gente, não acha? Olha, eu amei o buquê que vc me deu, mas... "- Foi quando ele me interrompeu com uma cara assustada e perguntou: - "Que buquê?" - Parabéns Gabriela, falou o que não devia de novo! Expliquei para ele a história toda, e acabou que por fim, ele foi tentar dormir e eu fiquei com aquilo girando na minha cabeça. Era muito para eu digerir numa noite só.
Vi o sol nascer e ainda não tinha conseguido fechar os olhos durante um minuto sequer. Eu estava confusa e tentava achar dentro de mim uma resposta, uma solução... Agora o João também?

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